"O sol de Túnis
Brilha no rosto dela
O vento de Damasco
Não deixa a sentinela
O ar do Cairo
Ainda não dá para curtir
A águia cai e o
Dragão quer subir
Muda, Luta, Muda ,Continuar"
(Cañotus, Primavera Árabe)
Abdel Fatah al-Sisi, líder militar egípcio, renunciou ontem ao cargo de ministro da Defesa e confirmou sua candidatura para a Presidência.
"Estou abrindo mão de meu uniforme para defender a nação", disse ele em discurso transmitido pela televisão.
Sisi é visto como mentor do golpe militar que depôs o presidente Mohamed Mursi, em julho de 2013.
Ainda não há data para as eleições presidenciais no Egito. Até agora, apenas o político de esquerda Hamdin Sabahi, terceiro colocado no último pleito, anunciou a sua candidatura, além de Sisi.
Quem assumir a Presidência do Egito terá de enfrentar um rol de desafios que incluem a instabilidade política, com crescente número de atentados terroristas, e a economia desestruturada.
Os anos de crise, desde a deposição do ex-ditador Hosni Mubarak, em 2011, afugentaram turistas, afetando um importante setor da economia local.
Sisi afirmou que não poderá "fazer milagres" e que será necessária a cooperação do povo egípcio na tarefa.
Ele promete, caso eleito, construir um "Egito moderno e democrático".
A imagem difere da perseguição política a membros da Irmandade Muçulmana, entidade islâmica que é ligada a Mursi.
Nesta semana, um tribunal sentenciou 529 deles à morte devido a conflitos com as forças de segurança.
Com duração de três semanas, julgamento foi o mais importante de terrorismo já feito em solo americano
ISABEL FLECKDE NOVA YORK
Nas últimas três semanas, a cena foi recorrente na corte federal de Manhattan: olhos grudados na tela à sua frente, Sulaiman Abu Ghaith, genro de Osama bin Laden e apontado como porta-voz da Al Qaeda, acompanha a exibição de vídeos em que faz discursos inflamados logo após os ataques do 11 de Setembro.
Num deles, ameaça os EUA com uma "tempestade de aviões".
As gravações --repetidas à exaustão durante o julgamento-- foram as principais provas usadas pela promotoria para conseguir a condenação de Abu Ghaith, 48, no crime de conspirar para matar americanos. A decisão foi anunciada ontem pelo júri.
A sentença, que pode chegar à prisão perpétua, será definida em 8 de setembro.
Diferente de sua versão 12 anos mais jovem, com barba ainda escura e turbante, o Abu Ghaith réu, de terno, careca e com longa barba grisalha, assistiu aos vídeos e aos depoimentos com ar resignado, sem esboçar reação.
Da janela da sala onde ele foi julgado, no 26º andar do prédio da corte federal em Manhattan, era possível avistar, a poucas quadras, o local antes ocupado pelas duas torres do World Trade Center.
Entre o reduzido público que acompanhou o julgamento --formado especialmente por jornalistas e estudantes de direito--, também se revezavam parentes de vítimas do 11 de Setembro.
"A decisão de comparecer foi difícil. Mas, além de os ataques terem me afetado diretamente, queria entender melhor como tudo isso funciona, para que mais vidas não sejam perdidas", disse a antropóloga Ellen Judd, que perdeu a companheira, Christine Egan, e o cunhado, Michael.
O forte simbolismo do local serviu para reforçar a tese do advogado de defesa, Stanley Cohen: seu cliente estava ali para responder por Bin Laden, morto em 2011.
Para ele, o mais importante julgamento de terrorismo realizado em solo americano após 2001 se tornou o julgamento que os EUA nunca poderão ter. "O governo americano está querendo julgar Bin Laden. Mas Sulaiman Abu Ghaith não é Bin Laden" disse Cohen àFolha.
O julgamento foi numa corte civil, como defende o presidente Barack Obama.
Abu Ghaith, casado com Fatima, filha de Bin Laden, não foi acusado de ligação com os ataques às Torres Gêmeas. Sua atuação teria vindo depois, com vídeos que, segundo a acusação, serviram para o recrutamento de terroristas dispostos a participar de novos ataques.
O próprio Abu Ghaith, que, numa inesperada manobra da defesa, testemunhou na semana passada, admitiu que Bin Laden, na noite após os ataques, teria pedido sua ajuda para "enviar uma mensagem ao mundo".
Abu Ghaith, contou que, na noite de 11 de setembro de 2001, se reuniu com Bin Laden em uma caverna nas montanhas. "Ele me disse: Você soube o que aconteceu? Nós que fizemos isso'", disse o réu, frisando que não sabia do atentado antes.
Nascido no Kuait, o imã chegou ao Afeganistão em 2000, onde conheceu Bin Laden e a Al Qaeda, e ficou lá até 2002, quando foi para o Irã. Ele foi detido em 2013, na Jordânia, quando era extraditado da Turquia para o Kuait, e levado aos EUA.
Segundo o homem apontado como mentor dos ataques do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, Ghaith foi escolhido pelo líder da rede terrorista como seu mensageiro por ser um "orador eloquente", e não porque soubesse das ações terroristas planejadas.
Entretanto, o depoimento de Mohammed inocentando Abu Ghaith --enviado, por carta, de Guantánamo, onde ele está preso com vários outros suspeitos de terrorismo"" não teve seu uso pela defesa autorizado pelo juiz.
Durante as três semanas de julgamento, testemunharam agentes americanos, um homem que foi recrutado pela Al Qaeda e especialistas em terrorismo, que colocaram Abu Ghaith como um importante membro da rede por comandar a sua "propaganda".
Os integrantes do júri --nove mulheres e três homens-- haviam declarado, antes do julgamento, não só nunca ter ouvido falar em Abu Ghaith, como não consideravam que a sua relação com Bin Laden os tornaria parciais. A condenação foi um voto unânime.
DE JERUSALÉM - Muhammad Badie, líder supremo da Irmandade Muçulmana, foi ontem a julgamento no Egito ao lado de outros 682 islamitas. Eles respondem a acusações que incluem homicídio e participação em organização terrorista, forma pela qual o governo classifica a Irmandade.O julgamento deve ser concluído até 28 de abril, segundo determinado por uma corte.O início do júri vem um dia depois da condenação à morte de 529 seguidores da organização, no que tem sido visto como a maior sentença de morte coletiva da história moderna do Egito. Essa decisão, porém, pode ser revertida por recurso. A Irmandade tem sofrido uma política de perseguição desde o golpe que depôs, em 3 de julho de 2013, o presidente islamita Mohammed Mursi. O governo interino, apoiado pelo Exército, tem detido e julgado seus seguidores, a despeito da forte condenação internacional. (DIOGO BERCITO). Folha, 26.03.2014.
EUA e Reino Unido suspendem auxílio a
grupos rebeldes sírios
Decisão foi anunciada após tomada de
bases de facção moderada
DIOGO
BERCITODE JERUSALÉM
Os EUA e o Reino Unido anunciaram ontem
a suspensão da assistência não letal ao norte da Síria após uma coalizão de
facções islâmicas ter tomado bases do Exército Livre da Síria, força de
oposição apoiada pelo Ocidente.
A Turquia, por sua vez, interrompeu a
passagem em sua fronteira na região devido aos confrontos entre os grupos
insurgentes que, além de lutar pela deposição do regime de Bashar al-Assad,
passaram a disputar entre si os territórios do país.
O incidente reflete a complexidade do
conflito na Síria. Em novembro, sete facções islamitas se uniram para formar a
Frente Islâmica, que visa construir um Estado islâmico na Síria.
O avanço dessas facções preocupa o
Ocidente, que apoia o Exército Livre da Síria e coalizões moderadas.
A decisão de suspender o auxílio foi
anunciada especificamente após a tomada de bases na região de Bab al-Hawa. Um
depósito do Conselho Supremo Militar, apoiado pelo Ocidente, foi saqueado.
De acordo com um porta-voz americano, a
ajuda humanitária entregue à Síria não será prejudicada pela decisão. A
"ajuda não letal" pode incluir a entrega de equipamentos de
comunicação, suprimentos médicos, informações de Inteligência e também vestes
de proteção.
Enquanto o segundo dia de negociações sobre o processo de paz na Síria --das quais participam 40 países e várias organizações internacionais-- continuava sem avanços concretos em Montreux (Suíça), o líder da rede terrorista Al Qaeda, Ayman al-Zawahri, pediu aos radicais islâmicos sírios que parem de se enfrentar e se unam para combater o regime do ditador Bashar al-Assad.
A declaração foi feita após um mês de confrontos entre dois grupos rivais que pertencem ao grupo terrorista.
Em uma mensagem de áudio, o dirigente convocou seus seguidores e os militantes moderados a "pararem imediatamente com os combates entre irmãos".
Ele pediu que seja convocada uma corte islâmica para mediar e resolver as diferenças entre os grupos.
Desde o fim de dezembro, integrantes da Frente al-Nusra, braço da Al Qaeda na Síria, e da Frente Islâmica, outro grupo radical, se uniram ao moderado Exército Livre Sírio em combates contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, facção iraquiana da rede terrorista que entrou no país no ano passado.
Os combatentes disputam território em três províncias do norte, antes dominadas pelos moderados e pela Frente al-Nusra. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, grupo ativista da oposição, cerca de 1.400 pessoas morreram nesses confrontos.
A disputa dentro dos grupos rebeldes permitiu o avanço das tropas do ditador Assad, que passaram a tomar conta de algumas cidades da região, incluindo alguns bairros de Aleppo, a segunda maior cidade síria.
Anteontem, o regime anunciou a retomada do controle do aeroporto e a chegada do primeiro voo comercial em vários meses.
NA SUÍÇA
Em Montreux, o líder da oposição síria, Ahmed Jarba, pediu que o governo de transição não inclua o presidente Assad. Em entrevista coletiva, ele disse que a comunidade internacional já percebeu que Assad não pode mais ficar no poder.
Ontem, em Genebra, o mediador da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi, se reuniu com as delegações do governo e da oposição para tentar convencê-los a negociar hoje diretamente uma solução para encerrar a guerra civil.
No entanto, Monzir Akbik, dirigente da Coalizão Nacional Síria, único grupo opositor que participa das conversações de paz, disse que o grupo e Assad não se sentarão à mesma mesa de negociações.
Segundo Akbik, o representante da ONU não alcançou o seu objetivo, e as negociações entre o governo e a oposição, que começarão hoje e devem durar cerca de uma semana, serão feitas por meio de um mediador.
O príncipe saudita Turki al-Faisal, ex-chefe de Inteligência da monarquia, criticou anteontem a administração de Barack Obama afirmando que o americano sofre de indecisão e de perda de credibilidade junto a seus aliados.
"Nós vimos uma série de linhas vermelhas' traçadas pelo presidente que, com o passar do tempo, se tornaram rosadas e, eventualmente, completamente brancas", afirmou ele, referindo-se especialmente ao caso da Síria.
O presidente Obama havia dito, por exemplo, que o uso de armas químicas pelo regime do ditador sírio Bashar al-Assad significaria cruzar a chamada "linha vermelha".
Os relatos de um ataque químico contra a população síria em agosto, porém, levaram os EUA a um acordo para a destruição do arsenal químico de Assad, e não a esperada intervenção militar.
"Quando esse tipo de garantia vem do líder de um país como os EUA, esperamos que ele a mantenha", disse Faisal.
A Arábia Saudita, como potência muçulmana sunita, é rival da liderança xiita iraniana e de seu aliado, Assad.
Essa monarquia havia rejeitado, recentemente, seu posto no Conselho de Segurança da ONU, alegando que houve fracasso desse órgão em impedir a continuidade do massacre de civis na Síria.
O acordo deste domingo foi o ato político mais relevante dos últimos tempos: a negociação entre o Irã e o grupo P5+1 criou possibilidades antes inimagináveis.
No Brasil, recuperou-se a memória da Declaração de Teerã de três anos atrás.
À época, a diplomacia turco-brasileira defendeu princípios que o atual acordo consagra: o reconhecimento do direito inalienável do Irã de enriquecer urânio para fins pacíficos e a importância da interlocução direta com o regime em Teerã.
Em vez de celebrar, porém, a conversa pública brasileira abraçou certa amargura.
Circula na imprensa a noção segundo a qual o acordo de domingo seria muito similar à Declaração de Teerã (ou pior que ela). O mundo teria perdido três anos por culpa de grandes potências, que, enciumadas, teriam puxado o tapete do Brasil e da Turquia.
Tal leitura é equivocada.
Primeiro: o acordo deste domingo está baseado no entendimento de que somente sanções asfixiantes levam o Irã a fazer concessões significativas. Brasil e Turquia defendiam o oposto.
Segundo: os termos deste acordo de agora são muito mais profundos e abrangentes do que se buscou fazer em 2010.
Terceiro: Estados Unidos e Europa puxaram mesmo o tapete de Brasil e Turquia. Só que não o fizeram por ciúme, arrogância ou medo, mas devido à política interna norte-americana e à dinâmica da negociação entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
Ao ignorar as causas verdadeiras de nosso revés em Teerã --e ao fazer pouco do acordo recém-assinado--, atentamos contra os nossos próprios interesses.
Afinal, o novo governo iraniano precisa de toda a interlocução possível até maio do ano que vem, quando voltará à mesa de negociação. Forças poderosas apostarão em seu fracasso, e poucos países têm tantas condições de oferecer-lhe diálogo como o Brasil.
Em Genebra, na semana passada, os negociadores iranianos lembraram a iniciativa turco-brasileira mais de uma vez. E o presidente Rowhani repete: para ele, o Brasil é exemplo bem-sucedido de um país que, sob sanções no passado, livrou-se delas, preservando seu programa nuclear para fins civis.
Há algo mais. Nos próximos meses, ganhará fôlego o debate sobre a transformação do Oriente Médio em zona livre de armas nucleares.
As chances de Israel aceitar algo assim são ínfimas, claro, mas nada é impossível.
A experiência do Brasil é ímpar, pois se passaram mais de 30 anos de negociação entre a primeira proposta de uma zona dessa natureza em nosso entorno regional e a sua implementação efetiva. Temos algo a dizer.
Por isso, talvez devêssemos receber o resultado de domingo como uma oportunidade. Ao saber da notícia, o presidente turco foi veloz: "Este é um grande passo adiante... Parabenizo os negociadores por seu engajamento construtivo".
Aqui, ao contrário, o Planalto não se pronunciou. E a nota oficial resume-se a indicar que o governo brasileiro "tomou conhecimento, com satisfação".
Fonte: Folha, 27.11.2013.
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Acordo com Irã atrasou 3 anos, diz Amorim
Texto anterior era mais duro com Teerã, afirma chanceler de Lula responsável por mediar pacto fracassado em 2010
Segundo Amorim, hoje ministro da Defesa, política interna dos americanos afetou as negociações na época
FERNANDO RODRIGUESDE BRASÍLIA
O ministro Celso Amorim (Defesa) afirma que o acordo sobre energia nuclear alinhavado em 2010 pelo Brasil e pela Turquia com o Irã era mais duro do que o atual, que acaba de ser anunciado.
Em certa medida, a negociação mediada em 2010 atenderia também mais aos interesses dos EUA do que o acerto do último domingo, assinado em Genebra entre Irã e o chamado P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China).
Em entrevista à Folha e ao UOL, Amorim afirmou que "foram três anos perdidos" desde a iniciativa liderada por Brasil e Turquia. "Do ponto de vista dos países ocidentais e dos EUA, aquele acordo [de 2010] era muito simples, muito matemático. Era tudo muito verificável", diz o ministro da Defesa, que foi durante oito anos (2003-2010) o titular da pasta de Relações Exteriores no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A diferença básica e mais relevante entre o acordo ensaiado em 2010 e o que foi firmado agora diz respeito a quem faria o enriquecimento do urânio. Há três anos, o Irã havia concordado em outorgar a outro país essa tarefa.
Pelo tratado atual, os próprios iranianos ficarão incumbidos dessa operação e depois se submeterão a algum tipo de fiscalização.
"Eu diria que o Irã estava fazendo uma concessão, naquela época, que não precisou fazer agora", diz Amorim, que participou diretamente da negociação em 2010. Naquele momento, o acordo acabou não prosperando porque o presidente dos EUA, Barack Obama, preferiu não levar as conversas adiante.
Ao analisar a razão pela qual as coisas não andaram há três anos, Amorim afirma ser "tentador dar vários tipos de resposta". O que torna tudo mais difícil de ser interpretado é que Brasil e Turquia obtiveram do Irã "exatamente aquilo que o presidente Obama tinha pedido", diz o ministro da Defesa. O desejo dos EUA foi detalhado em carta do próprio Obama a Lula.
Fatores políticos dentro dos EUA acabaram inviabilizando a execução final do acordo em 2010. Obama ainda estava no seu primeiro mandato e precisava garantir o apoio de todas as alas de seu partido na época, inclusive os mais conservadores, que viam com reticência um acordo nuclear com o Irã.
"Política interna e política internacional estão ligadas. Então, há relacionamentos internacionais dos Estados Unidos que têm reflexo na política interna", declara Amorim. Essa conjuntura acabou sendo "absolutamente preponderante" para o insucesso de três anos atrás.
HAITI
Líder de uma missão militar da ONU no Haiti desde 2004, o Brasil não será "uma guarda pretoriana de nenhum presidente haitiano", afirma o ministro da Defesa. Ele considera, entretanto, que o país não poderá "sair de uma maneira irresponsável" do território haitiano.
"Estamos fazendo uma retirada num ritmo bastante razoável. O Brasil tinha originalmente 1.200 homens. Esse número subiu para 2.300, mais ou menos. Já diminuímos cerca de 700 nos últimos dois anos e meio."
E quando será a retirada completa? "O que é desejável é que depois da próxima eleição, que deve ocorrer em dois, três anos, a gente esteja preparado para sair. E que o Haiti tenha a sua polícia nacional formada", diz Amorim.