terça-feira, 1 de abril de 2014

Realidade velada: O que podem e o que não podem as mulheres do Irã

SAMY ADGHIRNI

RESUMO A história recente do Irã foi marcada por avanços e retrocessos na vida pública e familiar das mulheres. Entre os países islâmicos, é um dos menos adversos à população feminina, escolarizada e com acesso a diferentes setores profissionais e da política, mas ainda discriminada em termos culturais, jurídicos e financeiros.
Numa noite de agosto passado, a plateia do teatro Vahdat, no centro de Teerã, presenciou um momento único na história da República Islâmica do Irã. Pela primeira vez desde a chegada dos aiatolás ao poder, há 35 anos, uma mulher cantou sozinha em público -e com a bênção do regime.
No ponto culminante de uma adaptação da ópera "Gianni Schicchi", de Puccini, a soprano Shiva Soroush, 28, ergueu a cabeça e estufou o peito; sua voz firme e cristalina entoou as lamúrias de sua personagem. Ao fim do solo, o frisson explodiu em gritos e aplausos.
O canto solitário não durou nem meio minuto. Foi suficiente para enterrar o tabu pelo qual uma voz feminina só era lícita se acompanhada de uma masculina.
Naquela noite, o presidente Hasan Rowhani, novo xodó do Ocidente, já governava o país. Mas o aval havia sido emitido, meses antes, pela equipe do conservador Mahmoud Ahmadinejad.
"Eu via no rosto das pessoas um misto de alegria e espanto. Eu estava em êxtase. Nunca me imaginei cantando na frente de membros do regime", recordou a moça, semanas depois, num café ocidentalizado da capital iraniana. "Sinto que essa reviravolta prenuncia mais coisas boas", sorriu a cantora.
Shiva nasceu e cresceu sob o regime teocrático e nunca teve dinheiro para viajar ao exterior. Mas ela faz parte da legião de iranianas, anônimas ou ilustres, que desbravam caminhos para tentar recuperar a proeminência perdida com a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi, em 1979.
Apesar de ainda viverem sob leis machistas e desiguais, as iranianas impõem-se em todas as áreas da sociedade. Três décadas e meia após a revolução, o Irã voltou a ser um dos países de maioria islâmica com ambiente mais favorável -ou menos adverso- para a mulher.
A comparação chega a ser especialmente embaraçosa para os vizinhos do Irã. As sauditas são atreladas por lei a um tutor -irmão, pai ou marido- e não podem nem dirigir. No Qatar, casas tradicionais possuem duas salas de estar, uma para receber convidados, outra para manter as cônjuges, irmãs e filhas longe das visitas. As afegãs devem abster-se de falar com homens que não sejam ligados a elas por vínculos familiares.
Apu Gomes/Folhapress
No quesito condições de vida básicas da mulher, o Irã também se sai melhor que outras regiões de maioria muçulmana. Metade das marroquinas não sabe ler e escrever, enquanto a taxa de alfabetização das iranianas beira os 90%. A mortalidade materna no Irã é de 21 para cada 100 mil partos, dez vezes menos do que na Indonésia.
Mulheres iranianas são as únicas no mundo legalmente obrigadas a cobrir cabelo e corpo. Mas elas estudam, trabalham e comandam empresas. São advogadas e juízas. Nas entrevistas coletivas, são elas que costumam incomodar os políticos com as perguntas mais certeiras. Madames poliglotas rivalizam-se à frente das mais prestigiosas galerias de arte de Teerã.
No Irã, elas não só votam como são eleitas deputadas, prefeitas e vereadoras. Podem se candidatar a todos os postos para os quais haja eleições diretas, mas nunca uma mulher foi considerada qualificada para concorrer à Presidência ou à Assembleia dos Peritos, órgão consultivo que escolhe e monitora o líder supremo.
O Irã tem mulheres artistas, atletas profissionais, taxistas. Nas universidades, a fatia feminina ocupa 52% das cadeiras. A poligamia está em extinção, e os casamentos arranjados, fora de moda. A mutilação genital, prática mais tribal do que religiosa, é raríssima.
Setareh Nouri, 25, parte da meia dúzia de iranianas que atuam como pilotos da aviação comercial, diz sentir-se desconfortável quando viaja a países árabes. "No Irã temos mais liberdade. Aqui posso trabalhar num ambiente masculino como a aviação, algo impensável no golfo Pérsico", diz a moça.
A arquiteta Sahere Foruhi, 54, orgulha-se de contrariar frontalmente o clichê da iraniana submissa. Bem-sucedida, viajada e mãe divorciada, espreme sua agenda diária entre serviços para a Prefeitura de Teerã e um escritório no qual tem o ex-marido como sócio.
Sahere avalia que o preconceito ocasional contra mulheres, na rua ou no mundo dos negócios, se assemelha ao da Itália, onde estudou. "Na maioria dos países europeus, a situação não é tão diferente da nossa. Invejável, só a Escandinávia. Ali, sim, as mulheres estão com tudo", afirma.
Na política, o debate sobre a representação feminina voltou à tona desde que Rowhani foi eleito, em junho do ano passado, com a promessa de "promover oportunidades iguais". O presidente, um clérigo xiita que se autoproclama moderado, enfrenta críticas por não ter criado até agora o Ministério para Assuntos da Mulher, anunciado na campanha.
Além disso, somente homens constam na sua lista de ministros. Mas três dos 12 vice-presidentes que apontou são mulheres. A mais proeminente é Masoumeh Ebtekar, 53, responsável por temas ambientais. Ela ficou famosa no Ocidente após a Revolução Islâmica, quando, então cursando biologia, gastou seu inglês perfeito para tratar com a mídia estrangeira em nome dos estudantes que tomaram a Embaixada dos EUA em Teerã.
O presidente também nomeou duas governadoras (não há eleições diretas para o posto) e escolheu a veterana diplomata Marzieh Afkham, 51, como porta-voz da Chancelaria, principal cargo de relações públicas do Estado.
Prefeitas são só duas, num país com mais de mil municípios. E, fora do Executivo, a representação feminina se mantém tímida. O número de deputadas caiu de 13 para 9 no último pleito. Elas ocupam uma fila exclusiva no plenário de 290 deputados (não há senadores).
ALTIVEZ
O mais surpreendente para quem descobre o Irã talvez seja a altivez cotidiana das iranianas. Elas batem boca no trânsito, barganham preços implacavelmente e pedem informação na rua a quem bem entenderem. Médicas atendem homens e vice-versa.
Jovens e idosas são capazes de se unir de repente para livrar da polícia moral uma mulher interceptada por carregar na maquiagem ou deixar cabelo fora do véu. A pressão e a gritaria são tamanhas que às vezes só resta aos agentes recuar da ação.
Nas grandes cidades, a maioria das jovens emenda um namoro no outro. Quase ninguém se apega à virgindade antes do casamento. "Mantenho uma lista com os nomes dos meus parceiros. Senão, é impossível lembrar de todos", diverte-se a tradutora M.J., 24.
Enquanto ocidentais cultivam a imagem da iraniana reprimida, muitos homens em países vizinhos têm leitura oposta e enxergam a antiga Pérsia como ninho de mulheres excessivamente liberadas.
Dois anos atrás, um afegão que havia sido pedreiro em Teerã disse à Folha como via as moças dos bairros nobres onde trabalhava. "As iranianas bebem, estão sempre maquiadas e se entregam a homens com quem não se casam. Elas não são boas muçulmanas."
No livro "The Ends of the Earth" (os confins da Terra, em tradução livre), de 1996, o jornalista americano Robert D. Kaplan expôs suas impressões sobre a república islâmica. Um trecho diz: "As mulheres em Teerã te encaram abertamente. Seus olhos olham fundo dentro dos teus. Cairo não tem muito disso, e Istambul ainda menos".
POTÊNCIA LAICA
O relativo avanço da mulher no Irã reflete as peculiaridades da história nacional. As bases do protagonismo feminino foram sedimentadas pelo xá Reza Pahlavi, fundador da dinastia homônima. Um militar linha-dura, mas pouco afeito a tradições, Pahlavi nunca escondeu a admiração por seu contemporâneo Mustafá Kemal Atatürk, o líder que pulverizou as fundações islâmicas da vizinha Turquia para transformá-la em potência laica calcada no modelo europeu.
Em 1936, Pahlavi criou o movimento Despertar da Mulher, que, à revelia dos religiosos, baniu o uso do véu e incentivou a criação de uma elite feminina nas ciências, nas artes e nos negócios. Mas, quando a Segunda Guerra eclodiu, britânicos e russos incomodaram-se com o flerte entre o xá e a Alemanha nazista e o pressionaram a abdicar em favor do filho.
Ao assumir o trono, em 1941, aos 21 anos, o jovem Mohammad Reza Pahlavi amenizou a restrição ao véu, mas prosseguiu o projeto de modernização do pai.
Sob a ditadura de Pahlavi filho, dissidentes eram torturados até a morte nas masmorras da Savak, a mais cruel polícia secreta daquela geração. Mas a idade mínima de casamento para meninas saltou de 13 para 18 anos, e mulheres passaram a ter o direito de pedir o divórcio e de dizer "não" a maridos que quisessem uma segunda esposa.
Nos anos 1970, alguns bairros de Teerã haviam se transformado em édens cosmopolitas, onde se viam cabelos soltos ao vento, minissaias e moças bebendo em bares. A face mais visível do glamour iraniano era a imperatriz Farah Diba, mulher do xá, que se dividia entre a filantropia no Irã e o jet set.
REVOLTA
A narrativa ocidental, porém, tende a omitir a rejeição que essa ocidentalização na marra sofria por amplos segmentos da população. No Irã profundo e na miséria das periferias infladas pela industrialização, um sentimento de revolta e alienação fervilhava.
Um dos primeiros atos públicos do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1963, quando era um clérigo provinciano, foi um protesto contra a lei que garantiu às mulheres o direito de votar e concorrer em pleitos municipais. Khomeini foi preso temporariamente. No ano seguinte, ele partiria para o exílio.
Só retornou ao país em 1979, para comandar a revolução, dessa vez com uma base popular que incluía intelectuais, comunistas e a classe média liberal, unidos pela repulsa à autocracia do xá. Em sinal de apoio a Khomeini, mulheres seculares marchavam de véu islâmico pelas ruas de Teerã. "Todas nós participamos da revolução. Nunca imaginamos o que viria depois", suspira a médica A.K., 53.
Meses após a queda do xá, Khomeini expurgou segmentos laicos da coalizão que o apoiava e pôs em prática seu projeto de implantar o "governo de Deus". No afã de eliminar o que via como corrupção ocidental, anulou leis familiares da era Pahlavi e impôs um modelo de sociedade patriarcal baseado numa interpretação ultraconservadora da sharia, a lei islâmica.

Mulheres no Irã

Apu Gomes/Folhapress


Iranianas em ônibus de transporte público de Teerã, que tem áreas separadas para homens e mulheres
O limite mínimo para casamento das mulheres caiu para nove anos -nessa idade, nas escolas, as meninas passam por uma cerimônia que marca a entrada na puberdade e fixa, por isso, a obrigatoriedade do véu. Na prática, porém, meninas de até 13 anos podem ser vistas com cabelos descobertos.
Elas perderam acesso a várias profissões, como a de juiz, e passaram a viver sob um regime extremamente desfavorável, que as prejudica em aspectos cruciais como o direito a heranças e guarda de filhos. A propaganda transformou o cânone da esposa dócil e zelosa em pilar da ideologia oficial. A lista de atividades banidas às mulheres incluiu desde o canto até andar de bicicleta. Espaços públicos, como transporte coletivo ou escolas, se dividiram segundo o gênero.
Três anos após a revolução, não somente o véu havia se tornado obrigatório como as mulheres foram proibidas de se maquiar ou andar com homens que não fossem da família, sob pena de se expor à chibata ou à cadeia.
APEDREJAMENTO
Adultério tornou-se passível de execução por apedrejamento. A carência de dados oficiais a respeito desse tipo de pena e o fato de que ela, em muitas ocasiões, é aplicada por cortes locais (que podem agir de maneira autônoma) não permite estimar com precisão sua ocorrência.
Organizações de defesa de direitos humanos fazem avaliações divergentes da situação, mas é seguro afirmar que até o início dos anos 2000 o apedrejamento havia sido imposto dezenas de vezes, incluindo aqueles contra homens.
"As políticas islamitas geraram uma posição extremamente desvantajosa para as mulheres ao reforçarem a dominação masculina, restringir a autonomia feminina e criar um padrão de relações entre gêneros profundamente desigual", escreveu a feminista Valentina Moghadam, radicada no Ocidente, em artigo científico produzido para o centro de estudos americano Wilson Center, em 2004.
Dois acontecimentos, porém, modificaram de forma inesperada a condição feminina no Irã. O primeiro foi a disparada do número de mulheres nas universidades após a revolução. Nos tempos da monarquia, famílias conservadoras preferiam manter as filhas dentro de casa para preservá-las de ambientes vistos como promíscuos. A adoção de rígidas leis morais tranquilizou os patriarcas, que passaram a permitir o estudo das meninas. Isso pavimentou o caminho para os altos níveis de instrução das iranianas observados hoje.
O segundo fator decisivo foi a guerra deflagrada em 1980, quando tropas do ditador iraquiano Saddam Hussein atacaram e invadiram o Irã, com anuência dos EUA. Ao longo de oito anos, o conflito mobilizou, matou e mutilou centenas de milhares de homens, abrindo espaço para maior participação das mulheres no mercado.
A situação da mulher continuou progredindo após o fim da guerra e a morte de Khomeini, em 1989. No plano econômico, o rastro de inflação, desemprego e escassez de recursos pós-conflito compeliu o presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-97) a restringir o crescimento demográfico. Graças a uma bem-sucedida política de planejamento familiar, a média de filhos por mulher despencou de 5,2 em 1986 para 1,6 em 2011.
Durante o governo Rafsanjani, a polícia moral se tornou menos agressiva. Em 1992 surgiu a revista "Zanan", primeira publicação local para o público feminino.
A gradual abertura interna culminou com a eleição à Presidência do reformista Mohammad Khatami, em 1997. Iniciava a era dos véus coloridos, dos batons berrantes e das roupas mais justas. Plásticas no nariz e implantes de silicone viraram febre, e a idade mínima para que as mulheres se casassem subiu para 13 anos.
A época selou, ainda, o início da disseminação em larga escala das antenas parabólicas (ilegais, mas onipresentes) e da internet (acessada graças a programas que contornam os filtros do regime). Muitos recordam a euforia que contagiou setores da classe média devido à proliferação de shows, filmes e peças de teatro.
A então crescente sintonia com o mundo externo ajudou a dar voz ao movimento feminista. Em 2003, a juíza e militante de direitos humanos Shirin Ebadi ganhou o Nobel da Paz. Sob Khatami, mulheres acederam ao primeiro escalão do governo e, em 1998, a cientista política Zahra Rahnavard assumiu o comando da Universidade Alzahra de Teerã, tornando-se a primeira reitora da república islâmica.
RETROCESSO
Muitas conquistas retrocederam com a chegada de Ahmadinejad ao poder, em 2005. A guarda moral voltou a infernizar as moças. A revista "Zanan" foi banida. A Justiça, por sua vez, tornou a sentenciar morte por apedrejamento, no caso de Sakineh Ashtiani, acusada de adultério e cumplicidade no assassinato do marido. Sob pressão internacional, o Irã recuou da lapidação, mas manteve a mãe de dois filhos na prisão em situação indefinida.
Há duas semanas, o chefe da Comissão de Direitos Humanos do Irã, Mohammad-Javad Larijani, anunciou que Sakineh havia sido libertada por "bom comportamento". O Comitê Internacional contra o Apedrejamento, ONG com sede na Europa, dá outra versão. A acusada teria sido solta após tentar se matar engolindo pregos. "Sua morte geraria uma pressão terrível contra o regime, que preferiu se livrar do incômodo", disse à Folha uma fonte do comitê.
Mas o pior legado de Ahmadinejad quanto à mulher, segundo uma ilustre feminista, foi a paralisação da luta contra aquela que continua sendo a maior injustiça às iranianas: inferioridade perante a lei.
"Perdemos oito anos", diz, por telefone, Sussan Tahmasebi, 47, radicada nos EUA. A exemplo de Shirin Ebadi -que se exilou no Reino Unido após a controversa reeleição de Ahmadinejad, em 2009-, Tahmasebi teve de sair do Irã após haver defendido mudanças na legislação."Pessoalmente, culturalmente ou socialmente, as mulheres obtiveram avanços. Mas a lei está em defasagem gritante com a realidade", lamenta Sussan.
No tribunal, o testemunho feminino ainda vale metade do masculino. O "preço do sangue", indenização paga pela família de um assassino a parentes da vítima, também é inferior em caso de morte de mulher. A herança dos filhos é maior que a das filhas. Homens podem pedir divórcio com mais facilidade. A mãe tem chances mínimas de obter a guarda dos filhos.
Homens também são os principais beneficiados pelo "sigheh", espécie de "casamento temporário" no qual o casal define um prazo de validade (que pode ser revogado se houver comum acordo e que vai de algumas horas a 99 anos), para tornar lícitas relações sexuais. O pacto, que não precisa ser registrado, supõe alguma compensação financeira à mulher. Enquanto um homem pode acumular vários "sighehs", a mulher precisa esperar a expiração do acordo para emendar um segundo. Na prática, o dispositivo acaba sendo um artifício para maquiar prostituição.
Vulnerável nos tribunais, a iraniana carece de recursos para reagir a humilhações de todo tipo.
No ano passado, a Federação Iraniana de Natação se recusou a oficializar o recorde de Elham Asghari, que, embora coberta da cabeça aos pés por um traje preto, percorreu 20 km no mar Cáspio mais rápido que qualquer pessoa no país. A marca da atleta não foi registrada sob o pretexto de as formas de seu corpo terem ficado à mostra quando ela saiu da água.
Meses depois, autoridades impediram Nina Moradi de assumir a cadeira de vereadora para a qual fora eleita, no norte do país, alegando que sua beleza perturbaria o trabalho dos políticos locais.
SURPRESA
Para surpresa de muitos ocidentais, existem iranianas favoráveis à desigualdade. "Essas diferenças existem no Corão. Mulheres são seres emocionais, incapazes de tomar decisões de forma adequada", argumenta a dona de casa Mansureh H., 47, que apoia a obrigatoriedade do véu.
A dona de casa é adepta do chador (barraca, em farsi), espécie de lençol que cobre da cabeça aos pés, deixando rosto e mãos à mostra. Nos meios mais jovens e liberais predomina o mais leve hijab, que cobre cabelo e pescoço.
Muitas iranianas têm visão oposta à de Mansureh e consideram que o véu constitui a mais contundente ferramenta do regime para controlar as mulheres.
"É um insulto à sabedoria e à personalidade da mulher. O fato de quererem decidir como me visto é terrível. Homens não vivem isso", esbraveja a jornalista Afsaneh J., 33. "O véu restringe muito nossa vida. Imagine correr no parque de manhã usando isso na cabeça."
Uma das mais conhecidas atrizes do cinema iraniano confidenciou, num jantar na casa de amigos em Teerã, ter recusado convites de Hollywood por causa do véu. "Quero continuar no Irã. Não posso aparecer em filmes nos quais sempre pedem para tirar o lenço e fazer cenas de romance."
Bel Falleiros
Parissa Porouchani, 56, que fundou e comanda o maior grupo de marketing no país, lamenta que o véu tenha se tornado uma "obsessão do Ocidente"."Quando vou à Europa, detesto que me olhem com cara de coitada por ter de cobrir a cabeça em meu país. Ocidentais não entendem que temos problemas mais graves, como desemprego e temas políticos."
Tanto Parissa como Setareh, a piloto de avião, dizem que o véu restringe o assédio. "Na época do xá, homens mexiam com as mulheres nas ruas ou no transporte público, assobiando ou passando a mão. Há que reconhecer que isso é raro hoje", diz a empresária.
RESPALDO
Mudar o status legal da mulher exigiria respaldo concomitante de três das instâncias mais conservadoras do regime: o Poder Judiciário, o Parlamento e o Conselho de Guardiães da Revolução (grupo de 12 fiscais ideológicos). A julgar pela crescente pressão interna, a lei não mudará tão cedo.
A estudante e ativista pelos direitos da mulher Maryam Shafipour, 29, foi condenada no início de março a sete anos de prisão por "propaganda contra o Estado". Maryam tem problemas de circulação, e sua saúde vem piorando na cadeia, segundo relato de parentes ao site reformista Kaleme.
O caso se parece ao da feminista Bahareh Hedayat, 32, presa desde 2010 pelo mesmo pretexto. O Judiciário mantém-se indiferente à campanha pela libertação das ativistas que buscam direitos iguais.
O cerco vai muito além da luta feminista. Execuções dispararam desde o fim do ano passado. Jornalistas voltaram a ser perseguidos. Presos políticos em liberdade condicional retornaram às celas.
A guinada é vista como demonstração de força dos inimigos de Rowhani no fragmentado tabuleiro da teocracia iraniana. Obrigados a engolir as concessões do presidente ao Ocidente na área nuclear, os ultraconservadores, influentes e numerosos, manobram para deixar claro quem manda em casa -inclusive na questão feminina.
Enquanto seus subordinados se digladiam, o aiatolá Ali Khamenei, chefe absoluto da teocracia iraniana, cultiva a ambiguidade. Mas, no discurso do Ano Novo persa, na semana passada, Khamenei disse que "cultura é mais importante que economia". Em aparente sinal de apoio às facções contrárias à liberalização da sociedade, ele pediu às autoridades que combatam "brechas culturais perigosas".
A feminista Tahmasebi reconhece as limitações de Rowhani. Mas aposta que o renascimento da sociedade civil pós-Ahmadinejad poderia criar um ambiente favorável a mudanças. "Se Rowhani aliviar a pressão do aparato de segurança sobre a população, aspirações das mulheres ressurgirão naturalmente. É compatível com o islã, basta interpretação mais progressista."
Aos obstáculos legais, soma-se uma resistência cultural machista, tão difusa quanto profunda, que se manifesta de incontáveis formas.

Mulheres são as maiores vítimas da crise econômica dos últimos anos, decorrente das sanções ao programa nuclear e das políticas populistas de Ahmadinejad, que esvaziaram cofres públicos e acirraram a inflação. O desemprego feminino supera 20%, mais que o dobro do masculino. Por uma regra não dita, homens quase sempre recebem salários mais altos.
"Pelo fato de eu ser mulher, meus clientes querem pagar metade", diz a advogada Elahe J., 37. "O modelo patriarcal está no sangue dos homens iranianos."
Apesar da ausência de estatísticas a esse respeito, várias das entrevistadas para esta reportagem dizem ter notado que a violência contra a mulher está em alta.
M.J., a tradutora, culpa as mães, que "mimam demais os meninos". Ela conta ter sido seduzida por um rapaz moderno e viajado, que terminou o flerte ao descobrir que ela havia tido uma vida amorosa antes dele. "Ele me disse que eu era independente demais."
A secretária Mehri R., 27, casada, diz falar em nome de todas as iranianas: "Muitas de nós se destacam na sociedade e parecem ter o mesmo espaço que os homens. Mas, quando você ouve segredos íntimos dessas vencedoras, percebe que, no fundo, todas sofrem na sua condição de mulher".
SAMY ADGHIRNI, 34, é correspondente da Folha em Teerã.
APU GOMES, 30, é repórter fotográfico da Folha.
BEL FALLEIROS, 31, é artista plástica. 

Folha, 30.03.2014

quinta-feira, 27 de março de 2014

Mentor de golpe no Egito confirma que disputará Presidência: Abdel Fatah al-Sisi deixa cargo de ministro da Defesa e promete país 'democrático'

DIOGO BERCITO - DE JERUSALÉM
Abdel Fatah al-Sisi, líder militar egípcio, renunciou ontem ao cargo de ministro da Defesa e confirmou sua candidatura para a Presidência.
"Estou abrindo mão de meu uniforme para defender a nação", disse ele em discurso transmitido pela televisão.
Sisi é visto como mentor do golpe militar que depôs o presidente Mohamed Mursi, em julho de 2013.
Ainda não há data para as eleições presidenciais no Egito. Até agora, apenas o político de esquerda Hamdin Sabahi, terceiro colocado no último pleito, anunciou a sua candidatura, além de Sisi.
Quem assumir a Presidência do Egito terá de enfrentar um rol de desafios que incluem a instabilidade política, com crescente número de atentados terroristas, e a economia desestruturada.
Os anos de crise, desde a deposição do ex-ditador Hosni Mubarak, em 2011, afugentaram turistas, afetando um importante setor da economia local.
Sisi afirmou que não poderá "fazer milagres" e que será necessária a cooperação do povo egípcio na tarefa.
Ele promete, caso eleito, construir um "Egito moderno e democrático".
A imagem difere da perseguição política a membros da Irmandade Muçulmana, entidade islâmica que é ligada a Mursi.
Nesta semana, um tribunal sentenciou 529 deles à morte devido a conflitos com as forças de segurança.
Folha, 26.03.2014
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Genro de Bin Laden é condenado nos EUA: Sulaiman Abu Ghaith é considerado culpado de conspirar para matar americanos; pena será definida em setembro

Com duração de três semanas, julgamento foi o mais importante de terrorismo já feito em solo americano
ISABEL FLECKDE NOVA YORK
Nas últimas três semanas, a cena foi recorrente na corte federal de Manhattan: olhos grudados na tela à sua frente, Sulaiman Abu Ghaith, genro de Osama bin Laden e apontado como porta-voz da Al Qaeda, acompanha a exibição de vídeos em que faz discursos inflamados logo após os ataques do 11 de Setembro.
Num deles, ameaça os EUA com uma "tempestade de aviões".
As gravações --repetidas à exaustão durante o julgamento-- foram as principais provas usadas pela promotoria para conseguir a condenação de Abu Ghaith, 48, no crime de conspirar para matar americanos. A decisão foi anunciada ontem pelo júri.
A sentença, que pode chegar à prisão perpétua, será definida em 8 de setembro.
Diferente de sua versão 12 anos mais jovem, com barba ainda escura e turbante, o Abu Ghaith réu, de terno, careca e com longa barba grisalha, assistiu aos vídeos e aos depoimentos com ar resignado, sem esboçar reação.
Da janela da sala onde ele foi julgado, no 26º andar do prédio da corte federal em Manhattan, era possível avistar, a poucas quadras, o local antes ocupado pelas duas torres do World Trade Center.
Entre o reduzido público que acompanhou o julgamento --formado especialmente por jornalistas e estudantes de direito--, também se revezavam parentes de vítimas do 11 de Setembro.
"A decisão de comparecer foi difícil. Mas, além de os ataques terem me afetado diretamente, queria entender melhor como tudo isso funciona, para que mais vidas não sejam perdidas", disse a antropóloga Ellen Judd, que perdeu a companheira, Christine Egan, e o cunhado, Michael.
O forte simbolismo do local serviu para reforçar a tese do advogado de defesa, Stanley Cohen: seu cliente estava ali para responder por Bin Laden, morto em 2011.
Para ele, o mais importante julgamento de terrorismo realizado em solo americano após 2001 se tornou o julgamento que os EUA nunca poderão ter. "O governo americano está querendo julgar Bin Laden. Mas Sulaiman Abu Ghaith não é Bin Laden" disse Cohen àFolha.
O julgamento foi numa corte civil, como defende o presidente Barack Obama.
Abu Ghaith, casado com Fatima, filha de Bin Laden, não foi acusado de ligação com os ataques às Torres Gêmeas. Sua atuação teria vindo depois, com vídeos que, segundo a acusação, serviram para o recrutamento de terroristas dispostos a participar de novos ataques.
O próprio Abu Ghaith, que, numa inesperada manobra da defesa, testemunhou na semana passada, admitiu que Bin Laden, na noite após os ataques, teria pedido sua ajuda para "enviar uma mensagem ao mundo".
Abu Ghaith, contou que, na noite de 11 de setembro de 2001, se reuniu com Bin Laden em uma caverna nas montanhas. "Ele me disse: Você soube o que aconteceu? Nós que fizemos isso'", disse o réu, frisando que não sabia do atentado antes.
Nascido no Kuait, o imã chegou ao Afeganistão em 2000, onde conheceu Bin Laden e a Al Qaeda, e ficou lá até 2002, quando foi para o Irã. Ele foi detido em 2013, na Jordânia, quando era extraditado da Turquia para o Kuait, e levado aos EUA.
Segundo o homem apontado como mentor dos ataques do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, Ghaith foi escolhido pelo líder da rede terrorista como seu mensageiro por ser um "orador eloquente", e não porque soubesse das ações terroristas planejadas.
Entretanto, o depoimento de Mohammed inocentando Abu Ghaith --enviado, por carta, de Guantánamo, onde ele está preso com vários outros suspeitos de terrorismo"" não teve seu uso pela defesa autorizado pelo juiz.
Durante as três semanas de julgamento, testemunharam agentes americanos, um homem que foi recrutado pela Al Qaeda e especialistas em terrorismo, que colocaram Abu Ghaith como um importante membro da rede por comandar a sua "propaganda".
Os integrantes do júri --nove mulheres e três homens-- haviam declarado, antes do julgamento, não só nunca ter ouvido falar em Abu Ghaith, como não consideravam que a sua relação com Bin Laden os tornaria parciais. A condenação foi um voto unânime.
Folha, 26.03.2014.
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quarta-feira, 26 de março de 2014

Muhammad Badie: Líder supremo da Irmandade e outros 682 islamitas são julgados

DE JERUSALÉM - Muhammad Badie, líder supremo da Irmandade Muçulmana, foi ontem a julgamento no Egito ao lado de outros 682 islamitas. Eles respondem a acusações que incluem homicídio e participação em organização terrorista, forma pela qual o governo classifica a Irmandade.O julgamento deve ser concluído até 28 de abril, segundo determinado por uma corte.O início do júri vem um dia depois da condenação à morte de 529 seguidores da organização, no que tem sido visto como a maior sentença de morte coletiva da história moderna do EgitoEssa decisão, porém, pode ser revertida por recurso. A Irmandade tem sofrido uma política de perseguição desde o golpe que depôs, em 3 de julho de 2013, o presidente islamita Mohammed Mursi. O governo interino, apoiado pelo Exército, tem detido e julgado seus seguidores, a despeito da forte condenação internacional. (DIOGO BERCITO). Folha, 26.03.2014. 
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    terça-feira, 11 de março de 2014

    Síria: Frente Islâmica (7 facções islamistas) + Exército Livre da Síria (EUA/Reino Unido) X Bashar al-Assad (Rússia / China / Irã/Hesbolah)

    EUA e Reino Unido suspendem auxílio a grupos rebeldes sírios
    Decisão foi anunciada após tomada de bases de facção moderada
    DIOGO BERCITODE JERUSALÉM
    Os EUA e o Reino Unido anunciaram ontem a suspensão da assistência não letal ao norte da Síria após uma coalizão de facções islâmicas ter tomado bases do Exército Livre da Síria, força de oposição apoiada pelo Ocidente.
    A Turquia, por sua vez, interrompeu a passagem em sua fronteira na região devido aos confrontos entre os grupos insurgentes que, além de lutar pela deposição do regime de Bashar al-Assad, passaram a disputar entre si os territórios do país.
    O incidente reflete a complexidade do conflito na Síria. Em novembro, sete facções islamitas se uniram para formar a Frente Islâmica, que visa construir um Estado islâmico na Síria.
    O avanço dessas facções preocupa o Ocidente, que apoia o Exército Livre da Síria e coalizões moderadas.
    A decisão de suspender o auxílio foi anunciada especificamente após a tomada de bases na região de Bab al-Hawa. Um depósito do Conselho Supremo Militar, apoiado pelo Ocidente, foi saqueado.
    De acordo com um porta-voz americano, a ajuda humanitária entregue à Síria não será prejudicada pela decisão. A "ajuda não letal" pode incluir a entrega de equipamentos de comunicação, suprimentos médicos, informações de Inteligência e também vestes de proteção.

    Fonte: Folha, 12.12.13.
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    sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

    Dirigente da Al Qaeda Ayman al-Zawahri pede que facções (Frente al-Nustra / Frente Islâmica / Exército Livre da Síria / Estado Islâmico do Iraque / Levante) se unam contra Assad Na Suíça, oposição síria pede ditador fora do governo transitório

    DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
    Enquanto o segundo dia de negociações sobre o processo de paz na Síria --das quais participam 40 países e várias organizações internacionais-- continuava sem avanços concretos em Montreux (Suíça), o líder da rede terrorista Al Qaeda, Ayman al-Zawahri, pediu aos radicais islâmicos sírios que parem de se enfrentar e se unam para combater o regime do ditador Bashar al-Assad.
    A declaração foi feita após um mês de confrontos entre dois grupos rivais que pertencem ao grupo terrorista.
    Em uma mensagem de áudio, o dirigente convocou seus seguidores e os militantes moderados a "pararem imediatamente com os combates entre irmãos".
    Ele pediu que seja convocada uma corte islâmica para mediar e resolver as diferenças entre os grupos.
    Desde o fim de dezembro, integrantes da Frente al-Nusra, braço da Al Qaeda na Síria, e da Frente Islâmica, outro grupo radical, se uniram ao moderado Exército Livre Sírio em combates contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, facção iraquiana da rede terrorista que entrou no país no ano passado.
    Os combatentes disputam território em três províncias do norte, antes dominadas pelos moderados e pela Frente al-Nusra. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, grupo ativista da oposição, cerca de 1.400 pessoas morreram nesses confrontos.
    A disputa dentro dos grupos rebeldes permitiu o avanço das tropas do ditador Assad, que passaram a tomar conta de algumas cidades da região, incluindo alguns bairros de Aleppo, a segunda maior cidade síria.
    Anteontem, o regime anunciou a retomada do controle do aeroporto e a chegada do primeiro voo comercial em vários meses.
    NA SUÍÇA
    Em Montreux, o líder da oposição síria, Ahmed Jarba, pediu que o governo de transição não inclua o presidente Assad. Em entrevista coletiva, ele disse que a comunidade internacional já percebeu que Assad não pode mais ficar no poder.
    Ontem, em Genebra, o mediador da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi, se reuniu com as delegações do governo e da oposição para tentar convencê-los a negociar hoje diretamente uma solução para encerrar a guerra civil.
    No entanto, Monzir Akbik, dirigente da Coalizão Nacional Síria, único grupo opositor que participa das conversações de paz, disse que o grupo e Assad não se sentarão à mesma mesa de negociações.
    Segundo Akbik, o representante da ONU não alcançou o seu objetivo, e as negociações entre o governo e a oposição, que começarão hoje e devem durar cerca de uma semana, serão feitas por meio de um mediador.
    Fonte: Folha, 24.01.2014.
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    terça-feira, 17 de dezembro de 2013

    Arábia Saudita - Mulçumanos Sunitas contrários aos Xiitas do Irã e da Ditadura Síria - Critica Obama por escassez de credibilidade Motivo é a inação dos EUA na guerra síria

    DIOGO BERCITO
    DE JERUSALÉM
    O príncipe saudita Turki al-Faisal, ex-chefe de Inteligência da monarquia, criticou anteontem a administração de Barack Obama afirmando que o americano sofre de indecisão e de perda de credibilidade junto a seus aliados.
    "Nós vimos uma série de linhas vermelhas' traçadas pelo presidente que, com o passar do tempo, se tornaram rosadas e, eventualmente, completamente brancas", afirmou ele, referindo-se especialmente ao caso da Síria.
    O presidente Obama havia dito, por exemplo, que o uso de armas químicas pelo regime do ditador sírio Bashar al-Assad significaria cruzar a chamada "linha vermelha".
    Os relatos de um ataque químico contra a população síria em agosto, porém, levaram os EUA a um acordo para a destruição do arsenal químico de Assad, e não a esperada intervenção militar.
    "Quando esse tipo de garantia vem do líder de um país como os EUA, esperamos que ele a mantenha", disse Faisal.
    A Arábia Saudita, como potência muçulmana sunita, é rival da liderança xiita iraniana e de seu aliado, Assad.
    Essa monarquia havia rejeitado, recentemente, seu posto no Conselho de Segurança da ONU, alegando que houve fracasso desse órgão em impedir a continuidade do massacre de civis na Síria.
    Fonte: Folha, 17.12.13
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