terça-feira, 17 de junho de 2014

INTELIGÊNCIA - ROYA HAKAKIAN: Revolução inacabada

Nas últimas semanas, enquanto líderes dos Estados Unidos e da União Europeia participavam de negociações nucleares com o Irã, outra discussão era travada no ciberespaço entre mulheres iranianas e cidadãos do mundo.
Iranianas corajosas tiraram seus véus e posaram para as câmeras, numa campanha intitulada Minha Liberdade Furtiva. Enquanto autoridades ocidentais se esforçavam para impedir Teerã de conseguir "a bomba", a campanha das mulheres desencadeava uma explosão própria e provocava uma resposta agressiva do governo.
O regime que queimou efígies de Tio Sam e vendou reféns, como se recordam pessoas que assistiram à Revolução Islâmica de 1979 acontecendo na televisão, hoje é ofuscado por suas cidadãs mulheres. A campanha das mulheres mostrou que, embora a República Islâmica possa estar oficialmente no comando, seu esforço de 35 anos para impor sua ideologia sobre metade da nação fracassou, na maior parte.
Para retaliar as imagens de centenas de mulheres sem véu postadas no Facebook, Teerã prendeu jovens que postaram no YouTube um vídeo em que dançavam ao som de "Happy", de Pharrell Williams. A dança aconteceu sobre um dos telhados em que foi encenado o espetáculo histórico do aiatolá Ruhollah Khomeini entoando "Allah-akbar" em 1978, nos dias que antecederam a queda do xá.
Assim como o movimento dos direitos civis é importante para o entendimento da outra parte dos EUA, a história da luta de quase cem anos em torno do "hijab" é importante para a compreensão do Irã oculto. Quando o país foi modernizado, na primeira parte do século passado, o xá Reza Pahlavi, em 1936, instruiu seus gendarmes a arrancar os véus das cabeças de mulheres em público.
A abolição do véu e a dessegregação por gêneros definiu o governo de Pahlavi e se tornou o éthos do Irã moderno. Nos dias emocionantes de 1978, quando o zelo revolucionário dominou a nação, a maioria das vozes seculares abraçou o hijab como símbolo da rejeição da monarquia e seus valores.
Se acompanhamos a história do véu no Irã, podemos acompanhar o fracasso do movimento democrático no país. A liderança secular posicionou-se contra o clero na maioria das questões, incluindo a liberdade da imprensa e de expressão. Mas, quando se tratou da liberdade de vestimenta das mulheres ou da proteção dos direitos das mulheres, ela a considerou menos urgente que questões como um potencial golpe apoiado pelos EUA contra o regime ainda nascente. Na formação de uma coalizão com o clero contra o xá, o hijab foi uma concessão fácil para a oposição secular, dominada por homens, fazer a Khomeini.
Dias após a revolução de 1979, Khomeini deu a ordem de reinstauração do véu compulsório. Um grupo pequeno mas eficaz de mulheres, acompanhado por algumas ativistas francesas e pela feminista americana Kate Millett, promoveu uma manifestação contra o decreto, em 8 de março de 1979, e obrigou Khomeini a recuar.
O véu só foi instaurado como lei em 1983. Naquela manifestação histórica, um repórter perguntou a Millett o que achava da posição do aiatolá em relação ao código de vestimenta islâmico. Millett, que posteriormente foi detida e expulsa do país, lançou um olhar indignado para a câmera e tachou o homem mais venerado do Irã de "machista".
Feita na esteira de uma revolução que seus famosos colegas intelectuais de esquerda tinham saudado como anti-imperialista, sua declaração foi presciente. Enquanto as escolas, os ônibus e os teatros do Irã foram segregados e as mulheres foram proibidas de atuar na maioria das carreiras de direito, medicina e engenharia, a misoginia era minimizada, tachada de nada mais que a petulância feminista de praxe. As mulheres perderam o direito de viajar e se divorciar. Nos tribunais, o valor do testemunho de uma mulher em um julgamento criminal caiu para metade do de um homem. Milhões de mulheres foram relegadas à cidadania de segunda classe, mas a intenção nociva de Khomeini ainda era medida pelo medo que ele suscitava no Ocidente, não pelo mal que causava às mulheres em seu país. Ele foi descrito como terrorista, fundamentalista e megalomaníaco religioso, mas raramente como misógino.
Hoje, a campanha Minha Liberdade Furtiva revela que a declaração acalorada de Millett anunciou a verdadeira ordem que se esconderia sob o véu do nome de República Islâmica: o apartheid de gênero. Disfarçado sob o manto do islã, o tipo de misoginia de Khomeini inspirou intenção nociva em outros da região, convertendo-se em um monstro onipresente e de muitas cabeças: na praça Tahrir, ele estuprou mulheres manifestantes; no Paquistão, disparou contra Malala; na Nigéria, roubou quase 300 meninas de uma escola.
Passadas décadas do governo do xá, as mulheres iranianas estão retomando furtivamente a liberdade que a monarquia certa vez lhes outorgou à força. Para esta geração, a meta não é abolir o véu, já que muitas iranianas ainda o abraçam, mas proteger legalmente a opção de usá-lo ou não. Até agora, seu espetáculo virtual bem-sucedido -com centenas de milhares de "curtir" no Facebook- e a cobertura da mídia não constituem uma vitória, pois uma vitória no ciberespaço é etérea.
Uma vitória real tem suas raízes numa campanha dotada de visão, valores, estratégia e uma identidade forte. Aquelas que combatem precisam ligar os pontinhos da irmandade feminina global, de modo a transcender o mero espetáculo e iniciar um movimento real. Os cidadãos do mundo real não podem limitar seu apoio a um simples sinal de positivo na mídia social. Uma nova geração de Kate Milletts precisa enxergar mais além da cortina de fumaça religiosa instalada pelos misóginos para mantê-la à distância. O pessoal ainda é político, sem dúvida. Mas agora também é global. NYT, 17.06.2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Copa do Alcorão: No Irã, representantes de 70 países disputam quem melhor recita o livro sagrado do islã; país usa a competição para se promover

SAMY ADGHIRNI - DE TEERÃ
Jorge Ezequiel Diaz, 26, viajou de Buenos Aires até Teerã para participar da Competição Internacional do Alcorão, que reúne a cada ano na capital do Irã os maiores mestres na arte de recitar e decorar o livro sagrado do islã.
Mas o argentino, inscrito na categoria leitura, não foi páreo diante de concorrentes mais preparados. "O nível é alto demais", suspirou, após declamar um trecho definido por sorteio.
Jorge foi eliminado porque o júri questionou seu sotaque em árabe, língua original do Alcorão, que ele não fala. Os árbitros também acharam que ele errou na ênfase ao pronunciar a palavra Alá.
O argentino foi um dos 106 inscritos na 31ª edição da competição, que se encerra na próxima segunda, após uma semana de disputa num centro de convenções. Mulheres não participam.
Neste ano, o concurso tem representantes de 70 países, incluindo Reino Unido e Canadá. Não há brasileiros.
A disputa é promovida pela Organização para Doações e Caridade, controlada pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei.
Todas as despesas dos participantes, de traslado aéreo a alimentação, são bancadas pela organização como parte da estratégia iraniana de estender seu "soft power", o poder geopolítico pela persuasão e pela empatia.
O Irã convidou até um participante da Colômbia, país sem embaixada em Teerã.
"Estou aqui para aprender. Quero dedicar minha vida ao islã", diz o colombiano Hernando Diaz, 27.
Apesar de o Irã ser o maior propagador do xiismo, ramo minoritário no islã, candidatos sunitas se dizem bem recebidos. "Iranianos têm sido muito gentis. Até o hotel é bom", afirma o sunita Hamid Ahmed, 37, do Níger.
A maior parte dos candidatos são craques do tajwid --a ciência da recitação do Alcorão-- em seus respectivos países. Outros são detectados por "olheiros" mundo afora e incentivados a mandar uma gravação de voz como teste.
O prêmio final equivale a US$ 13 mil (R$ 28 mil) para o vencedor de cada categoria.
Na prova de recitação, o júri avalia dicção, emoção e controle de respiração em versículos que podem se estender por meio minuto. A leitura se assemelha a um canto pausado e melancólico.
Na categoria memorização, o candidato tem um dia para decorar um trecho, também definido em sorteio.
"O nível dos participantes ocidentais aumentou muito nos últimos anos", diz o clérigo Seyed Masoud Mirian, chefe do comitê de seleção.
Os favoritos são participantes dos países de maioria muçulmana, principalmente aqueles que falam árabe.
ABISMO
Não é preciso ser perito, por exemplo, para notar o abismo entre o candidato egípcio, clérigo profissional de canto envolvente e cristalino, e o chinês, cuja voz parecia oscilar a cada frase.
Concorrentes se revezam num palco diante de um plenário cujas mesas são enfeitadas com bandeiras dos países participantes.
A performance ocorre sob olhar grave de dois enormes retratos dos líderes supremos do passado e do presente, Khomeini e Ali Khamenei.
O texto declamado aparece num telão eletrônico em árabe, farsi e inglês. Não há aplausos.
O júri, composto por 15 membros, acompanha numa sala separada, olho grudado na transmissão ao vivo da TV estatal.
As provas são abertas ao público, que circula livremente pelo local e pode falar com os participantes. O plenário tem área reservada às mulheres, quase todas cobertas com o véu preto integral que identifica origem social conservadora.
"Gosto muito da atmosfera espiritual deste evento", diz a dona de casa Leila, 30.
Alguns competidores, porém, não escondiam a decepção pelo fato de o presidente Hasan Rowhani, um clérigo, não ter aparecido na cerimônia de abertura.
"Estávamos todos na expectativa de vê-lo", lamentou o argentino.
A ausência alimenta especulações de disputas internas entre Rowhani, favorável à relativa liberalização, e seus adversários ultraconservadores, alguns dos quais são associados ao líder supremo. "O presidente não aceitou nosso convite", diz Bagheri Karim, do comitê organizador. Folha, 29.05.2014.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Manifestantes em Teerã protestam contra "véus errados"

Por THOMAS ERDBRINK
TEERÃ - Motoristas buzinavam freneticamente em seus carros, enquanto homens e mulheres vestidas com o chador preto brandiam os punhos ao abrir caminho pelo intenso tráfego matutino, esbravejando para que o governo prenda mulheres que não estejam devidamente cobertas.
"A corrupção e a imoralidade engoliram a nação", disse uma mulher, Shala Mousavi, a um repórter da rede de TV estatal iraniana. "Somos forçados a agir".
Os manifestantes tomaram a praça Fatemi, no centro da cidade, desafiando a proibição governamental a protestos não autorizados previamente.
Agentes da polícia ficaram de prontidão em meio aos manifestantes que bloquearam o trânsito para exigir medidas mais duras contra mulheres que desrespeitem o código de vestimenta islâmico do Irã, principalmente agora que o verão está chegando no país. Em termos numéricos, o protesto sobre o código de vestimenta, organizado por um seminário xiita em Qom, foi insignificante.
Mas o fato de a manifestação ter sido permitida levou muitos a concluírem que forças poderosas estão conspirando para minar as frequentes promessas do presidente Hasan Rowhani de conceder mais liberdades individuais.
Essa frente na longa guerra cultural entre os radicais e os reformistas do Irã se concentrou em um dos pilares da Revolução Islâmica: o véu para as mulheres.
No país, todas elas são obrigadas a cobrir a cabeça e usar um casaco, de preferência até um pouco acima do joelho, em público, incluindo dignatárias e turistas estrangeiras.
O Estado não determina formas exatas, cores ou tamanhos para os véus e casacos, por isso muitas iranianas criaram conjuntos combinando casacos apertados e echarpes fluorescentes do tamanho de um lenço, de onde mechas de cabelo caem em cascata.
Os radicais frequentemente acusam algumas mulheres de "perambular pelas ruas praticamente nuas". As roupas ocidentais também são desconfortáveis, disse um importante aiatolá.
"Vestindo roupas apertadas, algumas não podem sentar ou ficar em pé facilmente. Tais vestidos são prisões, e não roupas", disse Naser Marakem Shirazi em um comunicado. "Nossa cultura de vestimenta precisa ser mudada."
O Estado promoveu debates com clérigos na televisão para tentar convencer as mulheres a se cobrirem totalmente, destacando que a exposição de mechas pode levar a "depravações morais".
Recentemente, apareceram em Teerã cartazes mostrando a iguaria nacional do país, o pistache, com um texto dizendo que tudo o que é bom vem embrulhado numa casca, assim como o véu, o "hijab".
"Mas isso não está funcionando", disse uma mulher durante o protesto, fazendo referência à abordagem educacional em relação ao "hijab". "Todo verão, os 'hijabs errados' aparecem de novo. É simplesmente terrível."
Masoumeh, como ela se identifica, e algumas amigas do seu bairro, Yaftabad, alugaram um ônibus para irem à manifestação "a fim de acabar com essa situação".
Enquanto ela falava, um homem calvo, contrário ao protesto, aproximou-se e disse: "Deixem-nos em paz. Tenho vergonha de que você seja iraniana", e foi embora. "Que você fique careca para sempre", retrucou ela, fazendo suas amigas caírem na gargalhada.
A solução, "infelizmente", segundo Masoumeh, é dar plenos poderes à polícia da moralidade.
Diante de uma sociedade em transformação, onde mais pessoas estão focadas em direitos individuais do que em tradições, o Judiciário do Irã e a polícia criaram em 2005 a "Gashte Ershad", ou patrulha de orientação, para fazer valer o código de vestimenta. Há anos esses agentes abordam mulheres que não estariam devidamente trajadas. Seus pais, maridos e irmãos precisam ir à delegacia para liberá-las.
Durante sua campanha, em junho, Rowhani prometeu retirar essas odiadas forças das ruas.
Em visita a uma feira de livros, quando Rouhani disse que "pessoas cultas não precisam de orientação", Ismael Ahmadi Moghaddam, comandante da polícia, respondeu que "as pessoas incultas é que precisam de orientação".
No dia seguinte, a polícia da moralidade apareceu. Há indícios, porém, de que os radicais podem ter um verão difícil pela frente. Uma nova página do Facebook traz fotos de iranianas sem seus lenços, em passeios turísticos.
Mais de 135 mil pessoas curtiram a página "Liberdades Furtivas de Mulheres Iranianas" nos seus primeiros nove dias no ar.
Os administradores da página são anônimos, e a foto da capa, no topo da página, diz "Somos apenas nós mesmas". NYT, 20.05.14

Invocando deuses para o bem e o mal

INTELIGÊNCIA/OKEY NDIBE
O sequestro de estudantes nigerianas é o último drama desalentador que ocorreu no país mais populoso da África, cujo panorama promissor frequentemente é minado por desastres apresentados como atos divinos.
A Nigéria está entre os países mais religiosos do mundo -e há poucos anos eram apontados como o povo mais feliz do globo.
Um estrangeiro que venha aqui pode se espantar com a quantidade de igrejas e mesquitas.
As conversas são repletas de referências a Deus. Pergunte a alguém, "Como vai?", e a resposta é: "Bem, graças a Deus".
Perguntando se a pessoa já conseguiu um emprego, é provável ouvir: "Acredito que Deus me arranjará um emprego" ou "Deus está no comando".
Em um país com tantas estradas esburacadas e tantos carros em mau estado, e onde é mais fácil comprar uma carteira de motorista do que fazer um exame de habilitação, poucos viajam sem fazer uma pausa para orar.
Motoristas cristãos rezam para serem "cobertos pelo sangue de Jesus" e imploram para Deus "deter bruxas, feiticeiros e espíritos demoníacos" que supostamente se escondem nas estradas.
Lamentavelmente, a manifestação obsessiva de religiosidade frequentemente é uma desculpa para fazer a coisa errada -ou não fazer nada. O fervor pode levar à fuga da responsabilidade. É como se alguns nigerianos tivessem inventado um "Deus" indulgente com quem fazem tratos.
Clérigos mal-intencionados ganham fortunas afirmando que todos os problemas imagináveis -pobreza, desemprego, doenças e a incapacidade de atrair um cônjuge- têm uma causa satânica e precisam de antídoto divino.
Em 2012, uma alta funcionária do governo da Nigéria disse a seus convidados sul-africanos que um espírito maligno estava por trás do fracasso de seu país em fornecer energia elétrica regularmente. E defendeu um exorcismo para sanar o problema.
O grupo radical islâmico Boko Haram usou a religião para justificar os sequestros, alegando que educar meninas viola o Alcorão.
O Boko Haram, que jurou erradicar a influência ocidental e impor a supremacia islâmica, incendiou escolas, matou centenas de estudantes em seus quartos e lançou bombas em lugares públicos, matando centenas de pessoas e mutilando muitas outras. Anteriormente neste mês, alguns de seus membros, armados com fuzis AK-47 e granadas lançadas por foguetes, foram a Gamboru Ngala, uma comunidade pastoral perto de Camarões, e mataram mais de 300 pessoas.
A sede de sangue do Boko Haram e sua alegria perversa ao matar e mutilar em nome de Alá têm despertado um misto de horror e curiosidade no mundo.
Acostumados com atrocidades cujos autores invocam divindades, os nigerianos veem a disseminação do terror sectário como uma fase mais sangrenta de uma calamidade incessante.
Duas das principais religiões do mundo, o islamismo e o cristianismo, se debatem na Nigéria. Ambas tiveram períodos de coexistência pacífica, mas também registram uma longa história de relações tumultuadas.
Muitas vezes as tensões degeneraram em violência devido a membros ultrazelosos de correntes extremistas do islã, dispostos a converter "infiéis" à força.
A Nigéria tem muitos cristãos, muçulmanos e animistas que levam uma vida honesta, digna e moldada pelos preceitos de sua fé.
Mas é também um país no qual escroques e charlatães, incluindo políticos e os chamados "homens poderosos de Deus", usam o nome de Deus como marketing ou para encobrir suas falcatruas.
Em 2009, dois executivos de um banco nigeriano acusados de fraudar clientes que haviam depositado centenas de milhões de dólares eram não só membros proeminentes de uma igreja, como pastores ordenados.
Nunca vi qualquer político nigeriano nos últimos 25 anos que não tenha dito ser um muçulmano ou cristão devotado. Mesmo assim, a maioria enriqueceu obscena e inexplicavelmente.
É fascinante observar como a linguagem do poder público na Nigéria muda o tempo todo, amoldando-se a novos valores morais. Há várias décadas, um funcionário público que acumulasse riqueza ilicitamente seria chamado de ladrão ou peculatário, mesmo que não fosse punido pela lei.
Hoje em dia, um funcionário como esse diria: "Fui abençoado pelo meu Deus". Um ditado diz que tudo o que um ladrão precisa para santificar seu roubo é oferecer o dízimo estipulado em 10%.
E o que dizer de um candidato político que trapaceia para ganhar uma eleição? Como conferencista da Fulbright na Universidade de Lagos em 2002, usei uma discussão de "A Man of the People" [Um Homem do Povo], de Chinua Achebe, para falar sobre fraude eleitoral.
Um aluno ergueu a mão, ansioso para dar sua opinião. "Todo poder emana de Deus. Portanto, não se pode condenar um candidato, mesmo que ele trapaceie."
Outro estudante me explicou o seguinte: "Se não quisesse que o trapaceiro ganhasse, Deus poderia decretar sua morte".
Esse argumento bizarro explica por que, apesar dos templos onipresentes, a Nigéria parece ser tão obsediada eticamente. NYT, 20.05.14
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terça-feira, 15 de abril de 2014

Guerra contra Síria é dos EUA e de forças não democráticas: Vice-chanceler de Assad diz que ocidente tem de confiar no regime, e não em terroristas

DIOGO BERCITO - ENVIADO ESPECIAL A DAMASCO
Faisal al-Maqdad diz que foi surpreendido, em março de 2011, pelas vozes que tomaram as ruas em Deraa, sul da Síria, pedindo liberdade.
Em parte, afirma, porque acreditava que a Síria -governada há décadas pelo mesmo partido e pela mesma família- já fosse, afinal, livre. E porque ainda não entendia a "conspiração" armada para derrubar o país, antigo desafeto dos governos dos EUA e de Israel. "É uma guerra contra a Síria", afirma Maqdad à Folha, em seu escritório na capital, Damasco. Ele é vice-chanceler sírio e representante permanente do país na ONU.

Diante da saúde frágil do chanceler sírio, Walid al-Mualim, recentemente submetido a uma cirurgia cardíaca, Maqdad tem sido um dos principais rostos do regime de Bashar al-Assad. Ele diz ter certeza de que Assad vai vencer a guerra -só "depende da quantidade de dinheiro e de armas enviados pelas forças externas [para os rebeldes]".


Folha - Como o sr. descreveria a situação atual na Síria?
Faisal al-Maqdad - É uma guerra dos EUA e das forças não democráticas da região contra a Síria, incluindo Arábia Saudita, Turquia e Israel. Armas são entregues a grupos terroristas, como Al Qaeda e Jabhat al-Nusra.


Qual o interesse externo?
Os EUA querem que o último país no Oriente Médio a exigir uma solução justa ao conflito árabe-israelense desista. Querem mudar a natureza das alianças na região.


Para Israel, talvez fosse vantajoso que Assad ficasse no poder, por ser a opção estável.
É absolutamente o oposto. Israel tem recebido muitos dos feridos da Al Qaeda e de outros grupos terroristas [tratados em hospitais israelenses]. Essas gangues atacaram os palestinos na Síria, que são a esperança de um Estado palestino independente.


Quem é a oposição armada?
Conheço alguns deles pessoalmente. São criminosos e contrabandistas. São o tipo de pessoa que pode ser comprada pelos milhões de dólares enviados pela Arábia Saudita e pelos governos ocidentais. São terroristas armados que querem estabelecer um califado islâmico e restaurar o passado, em detrimento do governo secular sírio, que estabilizou a região por eras.


Qual foi o ponto de inflexão, após parecer que os rebeldes estavam perto de vencer?
No começo, não sabíamos o que estava acontecendo. O governo não esperava a quantidade enorme de armas e de dinheiro que entrou na Síria. O Exército não estava preparado para essas batalhas. Em um estágio seguinte, quando treinamos nosso Exército e mobilizamos o povo em forças de defesa, fomos capazes de rebater o ataque. Hoje, não há um só lugar na Síria em que o regime não possa entrar, caso o queira.


Não houve excesso do uso da força pelo governo?
Não. Todos os crimes foram cometidos por grupos armados. É hora de a comunidade internacional entender que precisa confiar no governo, e não nos grupos terroristas.


O sr. tem certeza de que vai vencer a guerra?
Absolutamente.


Em quanto tempo?
Depende da quantidade de dinheiro e de armas enviados pelas forças externas. Queremos, desde o início, resolver essa questão de maneira política. Mas aqueles que querem controlar a Síria não dão uma chance à solução política. Acreditamos que, no fim do processo político, deva haver uma urna para decidir quem vai liderar a Síria.


Essa já seria uma concessão do governo?
A democracia não é uma concessão. Democracia é um processo. O presidente Assad falou sobre esse processo por um longo tempo. Mas os opositores sabem que, democraticamente falando, não vão vencer. Como podemos discutir democracia com grupos terroristas, como Al Qaeda e Jabhat al Nusra? É difícil.


Haverá uma terceira negociação em Genebra?
A negociação política é a única solução. Mas não podemos desistir de nosso esforço contra o terrorismo. Acho que essa não é só nossa responsabilidade, mas também a da comunidade internacional. Líderes que querem justificar seu apoio a grupos como a Al Qaeda afirmam que a Síria tornou-se um ímã para organizações terroristas. Sim, mas eles são justamente os responsáveis por criar a atmosfera que as atraiu.


Em um governo de transição, Assad seria o presidente? Isso é negociável?
É absolutamente inegociável. Assad é a garantia para a unidade do povo sírio. Ele tem um grande apoio. Se há dúvidas, vamos às eleições.


As manifestações pediam mais liberdade. Há liberdade na Síria? É um erro dizer que Assad é um ditador?
Eles estão errados. Há problemas aqui e ali. Não posso dizer que a Síria seja um paraíso. O Brasil também não é. Vocês tiveram diversas manifestações contra a Copa, contra o transporte público, e não posso dizer que não há democracia no Brasil. Somos países em desenvolvimento.


Como avalia a atitude brasileira em relação à Síria?
Estive no Brasil no início da insurgência, para me reunir com membros do governo. É claro que há pressão no Brasil por países ocidentais, como os EUA. Mas o Brasil precisa entender melhor o desenvolvimento dos eventos na Síria, em especial aqueles relacionados aos direitos humanos. Os direitos humanos estão sendo violados por terroristas, não pelo governo.

Folha, 15.04.2014

Problemas colocam 'modelo turco' na berlinda:

ELENA LAZAROU -  ESPECIAL PARA A FOLHA
Em mais um episódio da saga política que trouxe a Turquia para as primeiras páginas da mídia internacional, a Corte Constitucional do país declarou na sexta-feira parte da reforma judiciária do primeiro-ministro Recep Erdogan inconstitucional.
A reforma teria dado ao governo maior controle sobre a nomeação de promotores e juízes. Isto ocorre apenas alguns meses após a explosão de escândalos de corrupção envolvendo alguns dos principais aliados de Erdogan.
Este é apenas o último de uma série de eventos que desafiaram o premiê turco desde junho passado, quando amplos protestos populares contra a natureza autoritária do governo estouraram.
A estes seguiram-se numerosas acusações de corrupção e a ruptura entre o primeiro-ministro e o influente pregador islâmico Fettullah Gülen e sua rede --que já foram influentes aliados de Erdogan.
Como reação, o premiê baniu o uso do Twitter e do Facebook no país.
Dentro da Turquia e ao redor do mundo, esses eventos levaram a profundas reavaliações do "modelo turco", que havia sido visto como um possível exemplo nos momentos que se seguiram à Primavera Árabe.
Também abriram uma série de questões acerca da própria natureza do líder turco. Aclamado como arquiteto da política econômica que tirou o país da situação na qual se encontrava no início dos anos 2000 e da política externa que o promoveu a potência mediadora regional e Estado com presença global, Erdogan recebeu abundantes elogios durante dez anos de governo.
Contudo, críticas ao governo, visto como cada vez mais conservador, autoritário e paternalista, crescem de maneira contínua, e os recentes banimentos de mídias sociais revigoraram os discursos que apontam para a natureza antidemocrática das decisões do Executivo.
Apesar de tudo, as eleições municipais realizadas apenas duas semanas atrás deram ao partido do governo uma vitória inquestionável, com percentagens mais elevadas do que as das últimas eleições municipais, em 2009.
Enquanto as demandas dos manifestantes --menos conservadorismo, mais liberdade, menos imposições do governo na vida cotidiana-- tinham o governo e o premiê como alvos, a ausência de oposição confiável e inovadora limitou as opções.
Mas por quanto tempo este situação perdurará? Neste momento, a oposição entre secularistas e islamistas está mais forte do que nunca. As queixas dos manifestantes foram revigoradas, enquanto a Corte Constitucional está demonstrando preocupações crescentes com relação às ações do governo.
Em meio a este cenário politica e socialmente instável, é difícil prever se a desejada prosperidade econômica pode ser assegurada.
Em agosto a Turquia vai eleger seu presidente e, enquanto as questões de democracia e direitos humanos talvez tenham sido deixadas em segundo plano no pleito local, a natureza politizada e personalista desta eleição pode mudar o jogo.

ALDO PEREIRA:Síria, lucros & perdas


Tirar Assad do caminho custou, até agora, devastação maciça, 150 mil mortos, 2 milhões de refugiados, privações horrendas, ódio amargo
Na guerra civil da Síria, revolucionários heroicos lutam para instituir democracia em lugar de cruel ditadura. Verdade? Mentira?
Programas de propaganda & desinformação de hoje não criam mentiras evidentes, mas as constroem com elementos ambíguos de verdade. É verdade, por exemplo, que o atual governante sírio, Bashar al-Assad, mantinha estabilidade mediante rigorosa repressão. Também é verdade que há mais de século interesses estrangeiros se intrometem nas governanças do Levante.
Em 1916, Inglaterra e França assinaram o acordo secreto Sykes-Picot para repartir entre si o território do Império Otomano (ou Turco), aliado da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Até hoje exploram lucrativas "áreas de influência" na região.
Em dezembro, o presidente francês, François Hollande, foi à Arábia Saudita bajular o rei Abdullah. (Nenhum dos dois levou consortes: Hollande buscava então acobertar sua infidelidade a duas mulheres, e o rei mantinha suas esposas, umas 20, em recatada reclusão.)
Hollande vendeu ao rei US$ 3 bilhões em armas. Vai entregá-las ao exército libanês para combater o Hizbullah, que defende refugiados palestinos e é aliado de Assad. Arábia Saudita e outras petromonarquias medievais do Oriente Médio têm cooperado com Israel e Estados Unidos na desestabilização de todo o Oriente Médio. Entre outros interesses, prevenir coordenação de forças modernizadoras que afrouxem a subordinação dos reinos petrolíferos a interesses euroamericanos e israelenses.
Há mais contra Assad: 1) O regime sírio é meio secular, tolera cristãos e moda feminina ocidental. Isso escandaliza Wahhabi e Salafi, ultradireita sunita que é o poder por trás do trono saudita. 2) O gás da plataforma continental do leste do Mediterrâneo, disputada por Chipre, Israel, Líbano, Síria, Turquia e territórios palestinos.
Para a Europa centro-oriental, sempre foi incômodo depender da Rússia para o gás que a conforta nos invernos. Daí o interesse pelo gás mediterrâneo, negócio no qual sobressai o influente petrogrupo israelense Delek (valor de mercado: US$ 3 bilhões). Quando o Líbano pleiteou sua parte desse gás junto à ONU, o chanceler israelense Avigdor Lieberman rosnou implícita ameaça: "Não lhes daremos uma só polegada [da área reclamada]". Israel ocupou Gaza em 2008 para confiscar direitos palestinos à plataforma.
Além de jazidas submarinas, a Europa também cobiça outras no Levante. Problema: gasodutos e oleodutos que as ligassem à Europa por terra teriam de cruzar território sírio. Mais uma razão para tirar Assad do caminho. Ao custo, até agora, de devastação maciça, 150 mil mortos, 2 milhões de refugiados, privações horrendas, ódio amargo.
Não basta. Em janeiro, o Congresso dos Estados Unidos aprovou em sessão secreta mais armas para rebeldes sírios. Em termos de direito internacional, o ato configura agressão. Mas talvez valha para o mundo inteiro o exemplo histórico de arrogância imperial dado pela secretária de Estado assistente Victoria Nuland no contexto da crise da Crimeia: "Que se foda a União Europeia!". Só?
O primeiro-ministro Tayyip Erdogan é suspeito de ter facilitado à frente al-Nusra acesso ao gás sarin que em agosto matou centenas de civis em Ghouta. Intenção: incriminar Assad e provocar intervenção direta dos Estados Unidos no conflito. Agora, animado por recente êxito eleitoral, Erdogan cogita de invadir a Síria. Menos de 2% dos turcos são árabes, pouco lhes importa que sangue e petróleo árabes jorrem baratos.
Folha, 15.04.2014
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